A Chapada dos Guimarães, localizada a apenas 65 km de Cuiabá, é um mosaico de paredões de arenito, cânions profundos, cachoeiras espetaculares e extensos campos de cerrado. Seu relevo de formações rochosas escarpadas e chapadões planos revela milhões de anos de história geológica, com sítios arqueológicos, cavernas e mirantes que escancaram paisagens de tirar o fôlego — tanto de dia quanto à noite.
Graças à elevada altitude (atingindo até 900 m) e ao baixo índice de poluição luminosa, as noites na Chapada dos Guimarães são extraordinariamente limpas e estáveis. O clima predominantemente seco na estação seca (abril a setembro) resulta em céus sem nuvens, permitindo visibilidade excepcional de estrelas, constelações e até da Via Láctea. Por isso, a região se tornou um dos destinos favoritos de astrônomos amadores e apaixonados por astrofotografia, oferecendo mirantes naturais que funcionam como verdadeiros observatórios a céu aberto.
Por que a Chapada dos Guimarães é o destino perfeito
Altitude e baixa poluição luminosa
Localizada entre 600 e 900 metros de altitude, a Chapada dos Guimarães fica acima da camada mais densa de poluentes e neblina que domina o baixo planalto de Mato Grosso. Esse posicionamento eleva a visibilidade do céu, reduzindo a interferência de luz artificial das cidades vizinhas. Aqui, as poucas povoações locais mantém normas de iluminação pública com lâmpadas direcionadas ao solo e uso limitado de holofotes, garantindo céus escuros onde estrelas e mesmo a tênue faixa da Via Láctea brilham com intensidade rara.
Clima seco e noites claras na estação seca
Entre abril e setembro, a estação seca predomina, com baixos índices pluviométricos e umidade relativa frequentemente abaixo dos 40 %. As formações rochosas e as chapadas conservam este clima seco, evitando nuvens densas e neblinas noturnas. Isso resulta em janelas longas de céu límpido: a partir do pôr do sol até quase o amanhecer, é possível acompanhar o movimento dos planetas, meteoros e as fases lunares sem interrupções, criando oportunidades únicas para observação contínua.
Proximidade de Cuiabá e acessibilidade
A apenas 65 km da capital Cuiabá, a Chapada dos Guimarães é servida por estrada asfaltada em bom estado, com sinalização e vários pontos de apoio (postos, restaurantes e pousadas). Em menos de uma hora de carro ou transfer, visitantes saem de um aeroporto nacional e já se encontram sob um dos céus mais limpos do Brasil. Essa facilidade de acesso reduz custos logísticos e permite saídas noturnas programadas a partir de hospedagens confortáveis, tornando a aventura astronômica mais segura e atraente para amadores e famílias.
Preparativos essenciais
Melhor época do ano para olhar as estrelas
O período mais indicado vai de abril a setembro, quando a estação seca garante céu livre de nuvens e neblinas. Nos meses de junho e julho, propícios para observar a Via Láctea e chuvas de meteoros como as Delta Aquáridas, as noites são particularmente límpidas. Para avistar planetas como Júpiter e Saturno em sua órbita mais baixa, prefira saídas entre maio e agosto, quando esses corpos celestes alcançam boa altitude antes do amanhecer.
Equipamentos básicos: telescópio, binóculos e aplicativos móveis
- Telescópio portátil: um refrator de 70–80 mm de abertura equatorial em montagem simples (EQ-1 ou EQ-2) é suficiente para enxergar crateras lunares e detalhes superficiais de Júpiter e seus satélites.
- Binóculos 10×50: complementam o telescópio, oferecendo visão mais ampla de constelações e enxames estelares, além de serem leves para uso em mirantes sem montagem.
- Aplicativos móveis: use apps como Stellarium Mobile ou SkySafari para identificar objetos em tempo real; ative o modo noturno (tela vermelha) para preservar sua visão escotópica. Salve mapas offline antes de sair por áreas sem cobertura de celular.
Vestuário e itens de segurança para noites abertas
- Roupas em camadas: leve uma camiseta dry-fit ou de lã leve, seguida por um fleece fino e um corta-vento leve, pois a temperatura pode cair rapidamente após o pôr do sol.
- Calçado confortável e antiderrapante: botas leves de trekking ou tênis de trilha garantem estabilidade em trilhas curtas até os mirantes.
- Iluminação de segurança: lanternas de cabeça com filtro vermelho evitam perturbar sua adaptação visual ao escuro; carregue baterias extras.
- Itens de primeiros socorros: kit básico com curativos, analgésicos e repelente natural de insetos, além de água e lanches leves para manter energia durante a observação.
Locais imperdíveis de céu escuro
Para quem busca locais imperdíveis para observação astronômica na Chapada dos Guimarães, selecionamos pontos onde a combinação de altitude, isolamento e geografia cria condições de visibilidade raras. Confira:
Mirante do Centro Geodésico
A 845 m de altitude, o Centro Geodésico oferece um panorama de 360° sobre o cerrado e os paredões de arenito. Sem árvores altas para bloquear o horizonte, esse mirante transforma-se num verdadeiro observatório natural — ideal para mapear constelações do leste ao oeste. O acesso é feito por uma estrada de terra batida em bom estado, com placas discretas que guiam o visitante até o topo; evite luzes fortes e use lanternas com filtro vermelho no trajeto.
Morro de São Jerônimo
Sobre uma laje de rocha lisa, o Morro de São Jerônimo proporciona uma plataforma livre de vegetação alta, perfeita para montar telescópios ou simplesmente deitar em tapetes e contemplar o céu do hemisfério sul. A superfície irregular requer cuidado ao estacionar, mas a ausência de postes e vilas próximas garante um céu imaculado, com estrelas mais brilhantes e um contraste incrível contra o preto absoluto da noite.
Vale do Rio Claro
As margens do Rio Claro funcionam como um refúgio praticamente isento de qualquer fonte de luz artificial. Aqui, o som suave da água complementa o espetáculo celeste, e há pequenas áreas de camping rústico, onde barracas podem ser erguidas em plataformas de madeira. As noites neste vale são silenciosas, permitindo observações prolongadas de meteoros ou do trânsito planetário sem interrupções.
Mirante da Janela
Essa fenda natural na rocha esculpe um “quadriângulo” celeste que age como um visômetro, ajudando astrônomos amadores a enquadrar perfeitamente objetos de interesse. Com estacionamento a poucos metros e um pequeno ponto de apoio — ideal para posicionar tripés e cabos — o Mirante da Janela é um dos locais mais acessíveis para astrofotógrafos, que aproveitam a moldura rochosa para compor imagens artísticas do céu.
Entorno da Cachoeira Véu de Noiva
A poucos quilômetros do centro da cidade, esta área plana e elevada mescla o som da queda d’água com a escuridão completa do cerrado. Como não há vilarejos nem estradas iluminadas nas proximidades, o local garante silêncio acústico e luminoso. Além de observar estrelas e planetas, você pode alternar entre a contemplação do céu e o relaxamento perto da água, criando uma experiência sensorial única entre luz e sombra.
Como aproveitar ao máximo cada ponto de observação
Escolha dos melhores locais para montar seu equipamento
Em mirantes elevados, como o Centro Geodésico e as fendas rochosas, instale seu telescópio ou binóculos sobre tripés firmes, preferencialmente apoiados sobre plataformas naturais, bancos de pedra ou lonas de tecido para garantir estabilidade. Nos campos mais abertos, como o Vale do Rio Claro, utilize as pequenas estruturas de camping — mesas rústicas ou palanques de madeira — para posicionar câmeras e ajustá-las sem tremores.
Momentos ideais da noite para observação
- Logo após o pôr do sol: assim que o brilho residual no horizonte some, os planetas mais luminosos e as primeiras estrelas aparecem com nitidez.
- Madrugada adentro: geralmente entre meia-noite e 3h, a atmosfera se acalma e a poluição térmica diminui, proporcionando visibilidade cristalina de nebulosas e aglomerados.
- Antes do amanhecer: ainda no período de escuridão, entre 4 h e 5 h, a Via Láctea e as últimas estrelas vespertinas podem ser vistas descendo lentamente para o oeste, perfeito para registros de longa exposição.
Preparação de mapas e pontos de referência
Baixe previamente mapas topográficos em aplicativos como Maps.me ou OsmAnd para uso offline. Salve as coordenadas de cada local de interesse, por exemplo:
- Centro Geodésico: 15.4382 S, 55.7675 W
- Morro de São Jerônimo: 15.4569 S, 55.7801 W
- Vale do Rio Claro: 15.4445 S, 55.7710 W
- Fenda da Janela: 15.4503 S, 55.7794 W
- Área da grande queda: 15.4250 S, 55.7832 W
Assim, mesmo sem conexão, você navegará com segurança, ajustará rapidamente o posicionamento do seu equipamento e aproveitará cada instante sob um céu magnífico.
Guias locais e grupos de astronomia
Benefícios de um guia certificado
Contar com um guia local credenciado traz muita segurança: ele conhece cada trilha, ponto de acesso e as variações climáticas típicas da Chapada, evitando deslocamentos em terreno perigoso ou choques com limites de propriedade. Além disso, possui conhecimento profundo das estrelas, planetas e constelações observáveis no cerrado, orientando o posicionamento do telescópio e sugerindo os melhores momentos para cada objeto celeste. Essa expertise permite ganhar tempo e minimizar erros de apontamento, garantindo uma sessão produtiva e sem frustrações.
Contatos de associações astronômicas de Mato Grosso
Para quem deseja se conectar com a comunidade, algumas entidades oferecem suporte e organizam saídas em grupo:
- Associação Mato-Grossense de Astronomia (AMA)
- Grupo de Observação do Cerrado (GOC)
Aderir a esses grupos facilita o acesso a passeios coletivos, empréstimo de equipamentos e dicas práticas sobre montagem de estações portáteis de observação.
Eventos e encontros públicos de observação
Ao longo do ano, municípios da Chapada promovem noites de observação abertas ao público, geralmente em mirantes ou praças centrais. Destaques:
- Noite de Telescópios no Mirante do Centro Geodésico (sempre na Lua Nova de julho)
- Roda de Conversa e Observação no Parque Municipal (último sábado de cada mês)
- Festival de Meteoros da Chapada (agosto), com acampamento noturno e palestras de astrofotógrafos
- Participar desses encontros é uma excelente oportunidade de aprender, compartilhar fotos e estreitar laços com entusiastas de todas as idades.
Dicas para fotografia de longa exposição
Ajustes de câmera: ISO, abertura e tempo de exposição
Para capturar o brilho tênue das estrelas, configure sua câmera em modo manual. Comece definindo o ISO entre 800 e 1600 — valores mais altos aumentam a sensibilidade, mas também o ruído. Escolha uma abertura ampla (f/2.8 a f/4) para deixar entrar o máximo de luz. Ajuste o tempo de exposição entre 15 e 30 segundos: exposições mais curtas não capturam estrelas suficientes; mais longas podem gerar rastros indesejados pelo movimento terrestre (a não ser que esse seja o efeito desejado, como em “star trails”). Faça testes rápidos, revisando o histograma e as prévias no LCD, até encontrar o equilíbrio ideal entre brilho das estrelas e nitidez do cenário.
Uso de tripés estáveis em terreno irregular
Um tripé robusto é fundamental. Prefira modelos com pernas ajustáveis individualmente, que garantem estabilidade em gramados, pedras ou solo arenoso. Fixe cada perna em ângulo amplo e, se possível, pendure uma bolsa de lastro (pode ser sua mochila) no gancho central para reduzir vibrações. Ao posicionar o equipamento, verifique com a mão o leve movimento da câmera; ajuste-se até eliminar qualquer oscilação. Para desligar o obturador sem tocar a câmera, use disparador remoto ou o timer interno (2 s de atraso), evitando trepidações na captura.
Paciência e técnicas de “star trails”
Para criar belos rastros de estrelas, mantenha a câmera expondo por vários minutos (até 20–30 minutos). Em vez de uma única longa exposição, utilize o modo de disparo contínuo: programe sequências de 30 segundos e depois combine-as em software de edição (DeepSkyStacker, StarStaX), reduzindo ruído e prolongando os traços. Lembre-se de aguardar o escurecer total e de escolher um ponto de vista com elementos de primeiro plano — árvores, rochas ou a silhueta de um mirante — para dar escala e interesse ao quadro final. A prática e a experimentação são essenciais: cada ponto de observação e condição meteorológica demanda ajustes finos, mas a recompensa são imagens únicas, que mostram a dança das estrelas no céu do cerrado.
Boas práticas e preservação do entorno
Redução de luz artificial e respeito à vizinhança rural
Use lanternas com filtro vermelho e evite iluminar o horizonte ou casas próximas. Apague luzes quando não estiver utilizando câmeras ou mapas. Fogueiras e refletores devem ser evitados perto de áreas habitadas, preservando o céu escuro e respeitando a tranquilidade das comunidades locais.
Limpeza e “leave no trace” em áreas de camping improvisado
Leve todo o lixo em sacos resistentes e, se possível, recolha resíduos deixados por outros. Use apenas produtos de higiene biodegradáveis. Ao sair, restaure o local: cubra pegadas, desmonte estruturas e evite deixar qualquer vestígio.
Respeito à fauna noturna e às regras do Parque Nacional
Mantenha distância de animais silvestres e nunca os alimente. Fique nas trilhas oficiais e respeite barreiras. Antes da atividade, consulte o regulamento do Parque para horários e áreas permitidas.
Ao longo deste guia, destacamos locais ideais para contemplar o céu na Chapada dos Guimarães. Agora é sua vez: planeje, respeite e contemple com consciência. Cada atitude conta para preservar esse patrimônio natural e celeste. Boa jornada sob as estrelas!




