Fernando de Noronha, arquipélago a 350 km do litoral nordestino, encanta por suas águas cristalinas e rica biodiversidade marinha. Com 21 km² de área terrestre e 420 km² de mar protegido, abriga mais de 200 espécies de peixes, tartarugas, golfinhos e recifes coloridos.
Porém, os corais são ecossistemas delicados, sensíveis ao toque, à sedimentação e a produtos químicos. Seu crescimento é lento e os danos podem ser irreversíveis. Por isso, práticas de mergulho responsável são essenciais — como usar protetor solar reef-safe e controlar a flutuabilidade.
Este guia traz orientações para mergulhadores iniciantes e experientes que desejam explorar Noronha sem impactar o ambiente. Aqui você encontrará dicas de equipamentos sustentáveis, técnicas de nado com baixo impacto, locais permitidos para mergulho e comportamentos que ajudam a preservar a vida marinha, garantindo que esses recifes continuem deslumbrantes para as futuras gerações.
Preparação antes da imersão
Escolha de operadoras e guias credenciados pelo ICMBio
Em Noronha, toda atividade de mergulho deve ser feita por meio de empresas autorizadas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Essas operadoras mantêm protocolos rígidos de segurança, conhecem as zonas de proteção de corais e respeitam os limites de visitantes por ponto de mergulho. Antes de fechar, verifique se a empresa exibe seu alvará ICMBio em local visível e se os guias possuem curso de mergulho autônomo reconhecido pela Associação Brasileira de Instrução de Mergulho (ABIMA) ou equivalente internacional. Guias locais experientes não apenas conduzem seu grupo com segurança, mas também interpretam comportamentos dos peixes e ajudam a evitar áreas mais sensíveis dos recifes.
Documentação e autorizações necessárias para o arquipélago
Para entrar em Fernando de Noronha, todo visitante paga a Taxa de Preservação Ambiental (TPA), que deve ser quitada online antes da viagem ou no aeroporto. Além disso, mergulhadores autônomos precisam registrar seu perfil de mergulho (nível, tipo de certificação e seguro-resgate) junto ao portal do ICMBio. Caso pratique cilindro, verifique se seu certificado PADI, SSI ou CMAS está válido e tenha em mãos o registro da última revisão de cilindros e equipamentos. Esses passos garantem controle de fluxo e garantem que apenas mergulhadores qualificados acessem os recifes, protegendo espécies vulneráveis.
Treinamento básico em técnicas de mergulho com baixo impacto
Antes de encarar os corais, pratique e aperfeiçoe seu controle de flutuabilidade em piscina ou em pontos de águas rasas com piso arenoso. Aprenda a usar o lastro corretamente, enchendo ou esvaziando o colete equilibradamente para manter-se “neutro” na coluna d’água, sem tocar o fundo. Treine o “hover” — manter-se parado em 3 m de profundidade — e corrija eventuais “pernas de sapo” (chutes fortes demais) que levantam sedimentos. Se possível, faça um breve curso de Mergulho de Baixo Impacto (Low Impact Diving), focado em ajustes de equipamento, técnicas de nado com nadadeiras curtas e comunicação silenciosa subaquática. Assim, você flutuará sobre os recifes sem tocá-los, evitando danos físicos e mantendo a visibilidade da água límpida.
Equipamentos ecológicos recomendados
Máscaras e snorkels de silicone médico reutilizáveis
Invista em máscaras de silicone médico de grau alimentício, isentas de ftalatos e outros plastificantes tóxicos. Elas garantem vedação perfeita, conforto prolongado e permitem limpeza profunda entre usos, evitando que fungos ou bactérias se acumulem. Combine com snorkels de silicone reutilizável — modelos com válvula de purga inferior que escoam a água sem precisar desmontar o conjunto. Esses materiais de alta durabilidade reduzem a geração de lixo plástico descartável e resistem melhor ao desgaste por sal e sol.
Roupas de neoprene ecologicamente certificadas
Opte por roupas de neoprene certificadas pelo padrão Yulex® ou EcoDive, que substituem o neoprene à base de petróleo por borracha natural de hevea certificada e livre de solventes nocivos. Esses trajes apresentam elasticidade e isolamento térmico equivalentes aos convencionais, mas têm menor pegada de carbono e não liberam microplásticos a cada atrito. Procure modelos com costuras seladas (blind stitching) para evitar infiltração de água e minimizar o uso de cola.
Protetores solares reef-safe e kits de primeiros socorros marinhos
Use apenas protetores solares reef-safe, formulados sem oxibenzona, octinoxato ou avobenzona — ingredientes relacionados ao branqueamento de corais e à toxicidade de organismos marinhos. Prefira versões minerais à base de dióxido de titânio ou óxido de zinco não nano, que criam barreira física e permanecem sobre a pele sem se dissolver na água. Leve também um kit de primeiros socorros marinhos, incluindo pomadas à base de algas e óleo de melaleuca para pequenos cortes, soro fisiológico em sachês para limpeza de feridas e bandagens biodegradáveis, garantindo proteção rápida e sem contaminação dos ambientes recifais.
Técnicas de mergulho de baixo impacto
Controle de flutuabilidade para evitar tocar o coral
O segredo para preservar os recifes está em manter uma flutuabilidade neutra: ajuste seu lastro de modo que você permaneça suspenso na coluna d’água, sem boiar demais (que o leve à superfície) nem afundar (que o faça bater no fundo). Faça testes antecipados em piscina ou águas rasas, adicionando ou removendo pequenas quantidades de peso até sentir-se “pairar” a cerca de 1–2 m acima do leito. Durante o mergulho, use o BCD (colete equilibrador) de forma suave — evite abrir válvulas abruptamente — e dê pequenos sopros de ar para correções finas. Assim, você nada sobre os corais sem tocá-los, permitindo que peixes e invertebrados continuem seu ciclo natural sem interferência.
Uso adequado das nadadeiras para minimizar sedimentos
Mergulhadores costumam gerar nuvens de partículas ao chutar o fundo com força. Para evitar isso, escolha nadadeiras curtas ou “pés de pato” flexíveis e pratique o estilo de nado de golfinho: impulsione o corpo a partir do quadril, mantendo as pernas estendidas e fazendo chutes suaves em ondulação. Ao navegar próximo ao leito arenoso, aponte as nadadeiras para cima, afastando o sedimento do coral e da água ao seu redor. Pequenos ajustes de posição com as mãos — sem tocar nada, apenas agitá-las suavemente para gerar propulsão mínima — complementam o movimento, garantindo água mais limpa e visibilidade preservada.
Manobras de aproximação lenta e silenciosa para não perturbar a fauna
Animais marinhos são sensíveis a vibrações e movimentos bruscos. Ao avistar peixes ou invertebrados, desacelere seu nado gradualmente a uma velocidade inferior a 0,3 m/s, e mantenha o corpo reto, alinhado com a corrente para reduzir o arrasto. Evite movimentos de braço que criem bolhas ou correntes fortes; em vez disso, use pequenos ajustes do BCD para avançar ou recuar. Ao aproximar-se de um ponto de interesse, pare a cerca de 2–3 m de distância e aguarde o animal se acostumar à sua presença. Essa paciência resulta em observações mais ricas, sem causar estresse ou fuga dos organismos.
Melhores pontos de mergulho em Noronha para coralização saudável
Baía do Sancho
Considerada uma das melhores do mundo, a Baía do Sancho apresenta recifes que se estendem de 5 a 20 m de profundidade, com visibilidade que varia entre 20 e 40 m, dependendo das correntes. Ali predominam corais de cérebro (Mussismilia spp.), corais de folha (Agaricia spp.) e corais-cérebro brasileiros (Favia gravida), além de formações de esponjas e mariscos. A topografia submarina, com paredões e túneis, cria refúgios perfeitos para peixes-papagaio, moreias e cardumes de pequenos peixes ornamentais. Para preservar esse ecossistema, siga sempre a rota marcada pelos bóias de amarração e evite nadar diretamente sobre as estruturas, reduzindo erosão e sedimentação sobre os pólipos.
Baía dos Porcos
Menor e mais abrigada, a Baía dos Porcos tem profundidades entre 3 e 12 m e visibilidade média de 15 a 25 m. Os recifes rasos abrigam principalmente corais foliáceos (Montipora spp.) e corais-cérebro menores, e são berçários naturais para peixes-borboleta e castanholas. Durante a alta temporada, o fluxo de embarcações e visitantes pode aumentar, portanto recomenda-se mergulhar logo cedo (antes das 8 h) ou no fim da tarde (após as 15 h), quando a maré está mais baixa e a agitação reduzida, garantindo menor impacto e observação mais tranquila da vida marinha.
Ilha Rata
Por ter recifes mais rasos — entre 1 e 5 m de profundidade — e águas calmas, a Ilha Rata é ideal para mergulhadores iniciantes e para quem pratica snorkel. Ali, crescem corais-maciço (Siderastrea spp.) e algas calcárias que formam tapeçarias sobre rochas submersas. A visibilidade costuma ultrapassar 20 m em dias de calmaria, permitindo ver polvos, caranguejos e pequenos peixes-cirurgião. Por ser uma área de coralização sensível, evite encostar nadadeiras no fundo e utilize sempre bóias de amarração autorizadas, evitando o uso de âncoras que podem quebrar os corais.
Comportamento subaquático responsável
Observação sem coleta: fotos e vídeos sem remover amostras
Registre cada momento com câmera ou celular em caixa estanque, mas jamais retire fragmentos de coral, conchas ou outros organismos do ambiente. Amostras removidas não se regeneram rapidamente e podem comprometer a saúde do recife. Em vez disso, faça múltiplas fotos e vídeos de diferentes ângulos, criando um álbum digital que integre belas imagens e dados de localização (geotags), contribuindo para seu acervo pessoal e, se desejar, para bancos de dados de conservação.
Distância segura de peixes, tartarugas e outros invertebrados
Mantenha pelo menos 2 a 3 metros de distância de animais de porte médio (peixes maiores, tartarugas) e 1,5 metro de invertebrados estacionários ou de movimentos lentos (estrelas-do-mar, ouriços). Essa margem evita estresse, impede que o jato das nadadeiras afaste sedimentos e assegura que o comportamento natural dos seres marinhos não seja alterado. Se o animal se aproximar por curiosidade, permaneça imóvel e deixe que ele decida a distância de observação.
Princípio “não deixe rastros”: não derramar alimentos nem detritos
Nunca leve comidas ou bebidas para dentro da água e evite o uso de embalagens que possam escapar. Restos de alimento atraem animais a locais impróprios e mudam seus hábitos de forrageamento, o que prejudica sua dieta natural. Da mesma forma, recolha e descarte fora do mar quaisquer resíduos sólidos ou objetos pequenos que possam cair, interrompendo o ciclo de poluição marinha e mantendo o recife limpo para todos os que vierem depois.
Monitoramento e participação em projetos de conservação
Como registrar avistamentos de espécies e eventuais danos ao coral
Durante o mergulho, leve um caderninho subaquático ou use apps de registro offline para anotar as espécies encontradas — peixe-papagaio, baiacu, ouriço-estrela — e indicar a localização aproximada em mapas do local. Se notar recifes branqueados, fragmentos quebrados ou sedimentos soterrando os pólipos, documente com fotos e grave vídeos curtos com data e hora. Após o mergulho, envie esses registros ao Núcleo de Pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em Noronha ou diretamente ao ICMBio, que avalia o estado de saúde dos recifes e planeja ações de restauração.
Programas de citizen science disponíveis em Noronha
Fernando de Noronha possui iniciativas abertas a turistas:
- Projeto Peixe‐Espada e Tartarugas: app “Noronha Biodiversidade” permite submeter avistamentos de tartarugas-verde e tartarugas-oliva, colaborando para o monitoramento de ninhos e áreas de alimentação.
- CoralWatch: aplicativo internacional que usa uma escala de cores para avaliar o branqueamento dos corais. Basta fotografar uma pequena área e comparar a coloração na escala, enviando o resultado para o banco de dados global.
- Starfish Survey: plataforma que convida mergulhadores a registrar números e condições de estrelas-do-mar, auxiliando na detecção de surtos de pragas ou doenças.
Voluntariado e doações para iniciativas de restauração de recifes
Se você quer ir além dos registros, considere dedicar algumas horas ao Projeto Tamar, que trabalha na recuperação de áreas degradadas de corais e na soltura de filhotes de tartaruga. Outra opção é apoiar o Instituto Chico Mendes por meio de doações para o Programa de Monitoramento de Recifes de Coral de Noronha, que financia mergulhadores-cientistas e compra equipamentos de mergulho ecológico para pesquisa. Voluntários podem participar de plantios de “blocos‐recife” — estruturas artificiais que fornecem suporte para novos pólipos — contribuindo diretamente para a regeneração dos ecossistemas marinhos.
Cuidados pós-mergulho
Limpeza e secagem dos equipamentos de forma ecológica
Após o mergulho, lave máscara, snorkel, nadadeiras e colete com água doce, usando lavatórios do ICMBio ou comunitários. Evite sabões comuns — prefira sabão neutro ecológico em pouca quantidade. Use esponja macia e enxágue bem para remover sal. Seque os equipamentos à sombra, protegendo materiais como silicone e náilon. Pendure peças menores, como luvas e meias, em cabides de bambu e vire-as para secar por completo.
Relato de condições do recife às autoridades locais
Registre informações sobre os recifes: corais branqueados, poluição, detritos ou espécies invasoras. Envie o relatório ao posto do ICMBio ou preencha o formulário online (www.icmbio.gov.br/noronha). Sempre que possível, anexe fotos com localização. Esses dados ajudam na proteção e recuperação dos ecossistemas marinhos.
Práticas de descarte correto de baterias e resíduos marinhos
Baterias de lanternas e câmeras devem ser levadas aos pontos de coleta no Centro de Visitantes ou lojas parceiras. Plásticos, linhas e detritos retirados do mar devem ser separados por tipo e entregues no Ponto de Entrega Voluntária (PEV). Assim, você colabora para manter o oceano limpo e os materiais em ciclos sustentáveis.
Dicas para famílias e mergulhadores iniciantes
Roteiros de snorkel em águas rasas com instrução passo a passo
Para iniciantes e crianças, escolha locais com até 1,5 m de profundidade e alta visibilidade, como Sueste e Prainha do Boldró. Faça uma breve orientação na areia: ajuste da máscara, respiração tranquila e sinais simples (“ok”, “subir”, “problema”). Entre com calma, de mãos dadas com um guia, mantendo o corpo relaxado e o olhar para baixo. Siga por áreas rasas, observando corais e peixes sem tocá-los.
Pousadas com oficinas de ecologia marinha
Hospedagens como a Zé Maria e Teju-Açu oferecem oficinas sobre recifes, com biólogos ensinando sobre corais, fotografia subaquática ética e viveiros em laboratório. Algumas incluem saídas para observar tartarugas ao entardecer, seguidas de rodas de conversa sobre conservação.
Cronograma ideal para combinar mergulho e descanso
Intercale atividades pela manhã (mar calmo) com descanso à tarde. Exemplo:
- Dia 1: snorkel e workshop.
- Dia 2: mergulho com cilindro e visita ao Projeto Tamar.
- Dia 3: caiaque e caminhada leve.
Inclua pausas entre atividades para hidratação e sombra.
Planejar com consciência, usar equipamentos ecológicos e apoiar a conservação transforma cada mergulho em Noronha numa experiência inesquecível e sustentável.




